Estive perdido

Numa manhã acordei, lá fora a chuva castigava a alegria de ser dia. Levantei-me da cama com sofrimento, entrei no banheiro, olhei aquela figura monstruosa de uma manhã chuvosa, encarei-me por alguns segundos e disse, vamos lá, de hoje não passa! Entrei em baixo do chuveiro, a água estava tão fria quanto o meu coração esteve nesses últimos meses. Parei por uns segundos e deixei a água cair sobre mim, como quem deseja que não só a sujeira de uma noite saia de si, mas a mancha de uma vida. Terminei, me arrumei, caminhei até a cozinha, procurei qualquer coisa para comer, olhei para o relógio, já eram 7h34, ainda chovia muito lá fora e não tinha muito o que fazer, sabia que se saísse até o ponto de ônibus para pegar a condução das 7h40, me molharia todo e corria o risco de não alcançá-la. Aguardei. Oito e dez o celular tocou, era meu chefe dizendo que passaria para me dar uma carona. Oito e vinte a buzina toca, saio de casa com meu guarda-chuva preto, entro no carro, solto um bom dia e vejo que ali sim o dia começara. Ao chegar no trabalho, tirei de cima da mesa o velho porta-retratos que exibia uma foto nossa, sorridente num dia de praia, recordação boa mas nada condizente com o que eu havia decidido naquele dia. Tomei o objeto, abri, tirei a foto e guardei carinhosamente dentro de um envelope, retirei de dentro da pasta uma foto minha não tão sorridente, mas minha, com a lembrança de um dos dias mais felizes que vivi, minha formatura. Devolvi o porta retrato pra mesa e comecei a trabalhar. O rapaz do café passou pontualmente as 9 trazendo o de sempre, mas dessa vez ele não trazia na caneca preta que era presente dele, trazia num copo de papel, como era entregue para os funcionários que não tinham caneca. É, já havia um tempo que tinha pedido pra não usar mais a caneca, que bom que o dia coincidiu. Levei a manhã toda para produzir a campanha que estava finalizando, mandei para aprovação e recebi de volta apenas com uma frase, "você é sempre fantástico no que faz". Levantei. Eram 12h26, hora do almoço, sai para o restaurante de sempre, na mão direita meu celular, na esquerda o cigarro, nos ombros a jaqueta. Cheguei ao Olivetti às 12h37,sentei na mesa da varanda e pedi um parmegiana, coca-cola e um cinzeiro, fumei mais dois cigarros enquanto o prato chegava, respondi as mensagens que estavam pendentes no aplicativo de conversas. Tudo caminhava normalmente até que aquele velho e conhecido número me mandou um "Oi", um simples OI que podia destruir toda minha programação. A comida chegou, larguei o celular e degustei calmamente o almoço, as mensagens não paravam de chegar seguidas de "Estou com saudade". "precisamos conversar", "o que aconteceu?", "porque não me responde?" ":("... Tomei o ultimo gole do refrigerante, peguei o celular, me dirigi ao caixa e paguei o almoço, caminhei até a cafeteria da esquina, comprei um duplo, e segui para o escritório. Quando cheguei, a figura da minha altura, sorriso largo e perfume envolvente me aguardava na porta, olhou nos meus olhos e esbanjava ternura, naquele instante me lembrei por quem me apaixonei. _Olá! _Olá! - respondi a contragosto, eu o amava, mas não podia voltar atrás. _Você está me evitando? _Sim. _Mas por que? _Porque eu te amo, porque eu ainda o amo de verdade, porque eu sinto que dentro de mim todo e qualquer sentimento é incompleto se não tiver você. Porque eu sei que se me entregar novamente a você, vou me perder, vou me perder e dessa vez não me encontrarei de novo. Passei longos meses no escuro, no medo, perdido dentro de mim, dentro de um sentimento que ninguém conseguia me tirar. Hoje eu estou saindo, me encontrando, resolvendo viver novamente e por favor não estrague isso. _Você sabe que as coisas não são assim. Quero ser seu amigo. _Eu não quero ser seu amigo. Te vejo todos os dias e não poder te tocar, te beijar, te abraçar, te cheirar me machuca, me fere. Ser seu amigo não me fará bem. _Você tem certeza? _Não, não tenho, mas preciso! Por favor me deixe! Fechei os olhos, respirei fundo na esperança do perfume ficar guardado mais uma vez nas minhas memórias, desviei e entrei. Tomei o café quente mais que depressa, nem senti, estava anestesiado. Sentei na minha mesa e comecei a dar início no novo projeto. Dezessete e vinte e cinco, faltava pouco pro expediente acabar, salvei o projeto, levantei de minha mesa e fui ao banheiro, entrei, sentei em um dos reservados e chorei, chorei copiosamente, chorei como uma criança, chorei como a meses não me permitia chorar. Eram 18h02, precisava sair, precisava me recompor. Levantei, lavei meus olhos, olhei para o espelho e disse "Estive perdido, hoje, não mais". Respirei, e sai porta a fora, não como que caminha pro mesmo destino, mas quem adentra a uma nova vida, e é isso que eu quero daqui pra frente, me achar.

Comentários

  1. Eu acho incrível a sua capacidade de emocionar mesmo sendo por simples palavras, mas carregadas de sentimento que nos levam a uma nostalgia.
    Tem uma coisa que me descreve perfeitamente. Todavia a vida imita a arte, não é?
    Sua escrita é maravilhosa já disse né? Rs
    Amo você meu amor

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  2. Eu gosto de sentir tudo o que escrevo. Imagino estando lá, sentindo gostos, sentindo cheiros, o frio... Tudo, gosto de sentir tudo como se eu estivesse de verdade lá.

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